Cinco dólares e nove centavos. Foi a cotação que o dólar bateu nesta segunda-feira, enquanto o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, reduzia pela quarta semana seguida a expectativa de inflação para 2026. Quem tem parte do patrimônio em moeda americana sentiu esse número de duas formas opostas: o saldo em reais engordou, mas a pergunta que fica é outra — o que fazer com esse dinheiro depois que ele já está em dólar?

Para boa parte dos brasileiros que começam a diversificar para fora do país, a resposta natural é comprar ações americanas ou ETFs de bolsa. Faz sentido — é o caminho mais divulgado. Só que existe uma classe de ativo bem menos comentada por aqui e que costuma ser o primeiro passo de quem já investe fora há mais tempo: os títulos do Tesouro americano, os chamados Treasuries. É a dívida pública dos Estados Unidos, o equivalente ao nosso Tesouro Direto, só que em dólar e com a solidez de crédito do país que emite a moeda mais usada do planeta.

Este guia explica o que são esses papéis, como um brasileiro compra na prática, quanto rendem hoje, quais riscos existem de verdade (câmbio inclui) e como funciona a parte — sempre chata, sempre necessária — da declaração de imposto.

Como um brasileiro compra títulos do Tesouro americano

  • Treasuries são títulos de dívida do governo dos Estados Unidos, divididos em T-Bills (curto prazo), T-Notes (2 a 10 anos) e T-Bonds (20 a 30 anos).
  • Um brasileiro não compra diretamente no site do Tesouro americano — o acesso é via corretora internacional, ETFs listados nos EUA ou fundos/ETFs disponíveis na B3.
  • O rendimento em dólar tem ficado acima de 4% ao ano nos títulos mais curtos, patamar bem superior ao período de juro quase zero da década anterior.
  • O maior risco para quem mora no Brasil não costuma ser o calote — é a variação cambial e a marcação a mercado se o título for vendido antes do vencimento.
  • Rendimentos e ganhos precisam ser declarados à Receita Federal, e valores acima de US$ 1 milhão em ativos no exterior exigem declaração trimestral ao Banco Central (CBE).
  • Não é um produto para quem ainda não tem reserva de emergência em reais nem entende o que está comprando — é peça de diversificação, não substituto da renda fixa local.

O que são exatamente os títulos do Tesouro americano

Quando o governo dos Estados Unidos precisa se financiar, ele emite dívida — do mesmo jeito que o Tesouro Nacional brasileiro faz com o Tesouro Direto. A diferença é a moeda, o tamanho do mercado (o maior do mundo) e a percepção de risco: os Treasuries são historicamente tratados como o ativo “livre de risco” de referência para o sistema financeiro global, porque o governo americano nunca deixou de pagar sua dívida em dólar.

Existem três famílias principais. Os T-Bills vencem em até um ano e não pagam cupom periódico — você compra com desconto e recebe o valor cheio no vencimento, como uma LTN brasileira. Os T-Notes vencem entre 2 e 10 anos e pagam juros semestrais. Os T-Bonds vão de 20 a 30 anos, também com cupom semestral. Quanto mais longo o prazo, maior costuma ser a sensibilidade do preço do título às mudanças na taxa de juros americana — e maior o risco se você precisar vender antes do vencimento.

Vale separar dois conceitos que se confundem: a taxa de juros dos EUA (definida pelo Federal Reserve, o banco central americano) e o rendimento (yield) dos Treasuries, que reflete não só a taxa básica, mas também as expectativas de inflação e crescimento para os próximos anos. É por isso que um T-Note de 10 anos pode render diferente de um T-Bill de 3 meses mesmo com a mesma política de juros em vigor.

Quanto rendem hoje — e por que isso mudou nos últimos anos

Durante boa parte da década de 2010, os Treasuries pagavam próximo de zero, e muita gente parou de prestar atenção neles. O cenário virou depois do ciclo de aperto monetário do Fed a partir de 2022: os títulos mais curtos passaram a pagar acima de 4% ao ano em dólar, e mesmo os papéis mais longos mantiveram prêmios relevantes frente à década anterior.

Isso muda a conta para o investidor brasileiro. Um CDB de banco médio no Brasil pode pagar 100% do CDI, algo perto de dois dígitos ao ano em reais — mas em reais, moeda que historicamente perde valor frente ao dólar no longo prazo. Um Treasury pagando algo perto de 4% ao ano em dólar é outra exposição: menos rendimento nominal, mas em uma moeda que tende a se valorizar contra o real em períodos de estresse. São propósitos diferentes na carteira, não concorrentes diretos.

Um exemplo com números ajuda a visualizar. Suponha que você aplique US$ 5.000 — cerca de R$ 25.450 na cotação de R$ 5,09 — em um T-Note de 2 anos pagando 4% ao ano. Em dois anos, ignorando reinvestimento dos cupons, você teria aproximadamente US$ 5.400 em juros acumulados, além do principal de volta. Convertido de volta para reais, o resultado final depende inteiramente do câmbio na data do resgate — e essa é a variável que costuma pesar mais que o próprio juro pago pelo título.

Como um brasileiro compra Treasuries na prática

O site oficial do Tesouro americano, o TreasuryDirect, exige número de conta bancária americana e identificação fiscal dos EUA — não é acessível diretamente para quem mora no Brasil. Na prática, existem três caminhos.

Corretora internacional

Abrindo conta em corretoras como Avenue, Interactive Brokers ou similares, é possível comprar Treasuries no mercado secundário, negociados como qualquer outro título de renda fixa. É o caminho mais direto para quem quer o título específico — escolher vencimento, comparar yields entre papéis — mas exige transferência internacional de recursos e traz obrigações declaratórias mais pesadas, como já é o caso de quem mantém qualquer conta de investimento fora do país.

ETFs de Treasuries listados nos EUA

Fundos como os que replicam índices de títulos do Tesouro de curto, médio ou longo prazo são negociados na bolsa americana como uma ação qualquer, e compram uma cesta de Treasuries de diferentes vencimentos. A vantagem é a diversificação automática entre papéis e a liquidez diária. A compra ainda depende de ter conta em corretora internacional.

ETFs e BDRs disponíveis na B3

Para quem prefere não abrir conta fora do país, há ETFs internacionais listados na própria B3 com exposição a renda fixa americana, negociados em reais, dentro da mesma corretora brasileira que você já usa para ações e fundos. É o caminho mais simples operacionalmente, ainda que a oferta de produtos seja menor do que a disponível diretamente nos Estados Unidos.

Os riscos que pouca gente explica direito

O risco de calote do governo americano é considerado historicamente baixo — é por isso que os Treasuries servem de referência para o mercado inteiro. Mas “risco baixo de calote” não é o mesmo que “risco zero”, e é aqui que muita divulgação apressada sobre investir fora simplifica demais.

O primeiro risco real é cambial. Se você compra um Treasury com dólar a R$ 5,09 e resgata com dólar a R$ 4,70, o rendimento em dólar do título pode não compensar a perda na conversão de volta para reais. O inverso também vale: em um cenário de dólar mais forte, o ganho cambial pode superar o próprio juro pago pelo papel. É um risco de duas mãos, não uma proteção automática.

O segundo é a marcação a mercado. Se você compra um T-Note de 10 anos e o Fed sobe os juros logo depois, o preço do seu título cai no mercado secundário — porque papéis novos, emitidos com juro mais alto, ficam mais atraentes que o seu. Quem segura até o vencimento recebe o valor combinado normalmente; quem precisa vender antes pode realizar perda. Títulos mais longos sofrem mais esse efeito do que os mais curtos.

Existe ainda o risco de liquidez e operacional de manter dinheiro em uma corretora fora do país — trâmites de sucessão, custos de transferência internacional e a curva de aprendizado de operar em outro mercado, em outro idioma, com outro fuso horário.

Impostos: o que muda quando o rendimento vem do exterior

Aqui está o ponto onde mais gente tropeça, porque a lógica não é igual à da renda fixa brasileira. No Brasil, a corretora recolhe o Imposto de Renda automaticamente na fonte. Quando o rendimento vem de um ativo no exterior, a responsabilidade pelo cálculo e pelo pagamento é sua.

De forma geral, rendimentos recebidos do exterior — como os cupons semestrais de um T-Note — entram na tributação mensal obrigatória via carnê-leão, e o ganho de capital obtido na venda ou no resgate do título segue as regras específicas de apuração de ganho de capital em moeda estrangeira. As alíquotas e a forma de apuração variam conforme o tipo de rendimento e o valor envolvido, e mudam com alguma frequência conforme a legislação é atualizada — por isso vale acompanhar as instruções normativas atualizadas no site da Receita Federal na época de declarar, em vez de confiar apenas no que leu em um artigo.

Há também uma obrigação separada, e que muita gente desconhece: quem mantém mais de US$ 1 milhão em ativos no exterior — somando contas, títulos e outros investimentos — precisa apresentar a declaração de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) ao Banco Central, com periodicidade que depende do valor total declarado. Para quem está começando com valores menores, essa obrigação específica não se aplica ainda, mas é bom já conhecer a regra, porque ela costuma pegar de surpresa quem cresce o patrimônio no exterior sem perceber que cruzou o limite.

Faz sentido para o seu perfil?

Treasuries não são um produto de entrada. Antes de pensar neles, o básico já precisa estar resolvido: reserva de emergência em reais, dívidas caras quitadas, e uma compreensão razoável de como funciona renda fixa — prazo, marcação a mercado, cupom. Quem ainda está organizando o orçamento do mês ganha mais organizando o orçamento do que estudando yield curve americana.

Para quem já passou dessa fase e quer diversificar moeda, o Treasury cumpre um papel específico: é a parte “âncora” e mais previsível de uma carteira internacional, o equivalente ao Tesouro Selic da carteira em dólar. Faz mais sentido como complemento de uma alocação já pensada — uma fatia pequena e planejada do patrimônio, não uma aposta isolada motivada pela cotação do dólar do dia.

Um jeito prático de testar se faz sentido para você: se a ideia de acompanhar o câmbio, entender marcação a mercado e lidar com uma declaração de imposto mais trabalhosa parece mais estresse do que benefício, talvez o momento ainda não seja esse — e não tem problema nenhum nisso. Diversificação internacional é uma etapa, não uma obrigação universal.

Perguntas frequentes sobre Treasuries

Um brasileiro comum consegue comprar Treasuries com pouco dinheiro?

Sim. Diferente da imagem de que investir fora exige valores altos, muitas corretoras internacionais aceitam aportes iniciais modestos, e os ETFs de Treasuries negociados em bolsa custam o preço de uma cota — geralmente dezenas de dólares. O valor mínimo real costuma ser definido pela corretora escolhida, não pelo título em si.

Treasury é mais seguro que o Tesouro Direto brasileiro?

São seguros de formas diferentes. O Tesouro Direto brasileiro tem o risco de crédito do governo brasileiro e paga em reais; o Treasury tem o risco de crédito do governo americano e paga em dólar. Nenhum dos dois está livre de risco — cada um carrega o risco-país e o risco cambial da sua própria moeda.

O que acontece se eu precisar vender o título antes do vencimento?

Você vende no mercado secundário pelo preço vigente naquele momento, que pode estar acima ou abaixo do que você pagou, dependendo de como os juros americanos se moveram desde a compra. Só quem segura até o vencimento tem a garantia do valor combinado na emissão.

Preciso declarar mesmo recebendo pouco em juros?

Sim. Não existe piso de isenção específico para não declarar a posse do ativo — a obrigação de informar bens e direitos no exterior na declaração anual de Imposto de Renda vale independentemente do valor. O que muda com o valor é a exigência adicional de CBE ao Banco Central, que só se aplica acima de US$ 1 milhão.

ETFs de Treasuries na B3 têm o mesmo risco cambial dos títulos comprados direto nos EUA?

Sim, o risco cambial existe da mesma forma, porque o ativo subjacente é em dólar independentemente de onde o ETF é negociado. A diferença entre comprar na B3 ou direto nos EUA está na operacional e na tributação, não na exposição cambial do investimento.

Fontes consultadas

Aviso: este conteúdo é informativo, tem fins informativos e educativos e não constitui recomendação individual de investimento, crédito, consórcio, compra, venda ou decisão financeira. Antes de decidir, avalie seu perfil, leia os contratos e, se necessário, consulte um profissional credenciado.

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By Ivan Chapochnicoff

Ivan Chapochnicoff é empreendedor digital e entusiasta de educação financeira com foco no público brasileiro. Fundador do Finanças do Zero, dedica-se a tornar conceitos financeiros acessíveis para quem está começando a organizar sua vida financeira. Com experiência prática em investimentos, orçamento pessoal e empreendedorismo, acredita que informação financeira de qualidade deve ser gratuita e acessível a todos. Seu objetivo é ajudar brasileiros a sair das dívidas, construir reservas e investir com consciência, independente da renda. As informações publicadas têm caráter exclusivamente educacional e não constituem consultoria financeira personalizada.